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sábado, 5 de agosto de 2017

Simply the Best. Biografia de um génio

Em 2006, no dia em que faria 60 anos, o aeroporto de Belfast foi rebaptizado com o seu nome. “Immortal. The Biography of George Best”, de 2014, está ao nível das melhores de outros futebolistas.

Colocaram o caixão na sala de estar da casa dos pais, seguindo a tradição de Belfast. Burren Way, nº 16, um comboio de moradias de tijolo, pequeno-burguesas e modestas, construídas com um luxo para a época, a casa de banho dentro de casa. Apesar de nascido e criado em Belfast, o motorista de táxi nem sabia onde era, andou às voltas pelo bairro onde ele passou a meninice, a idade travessa de que nunca se libertaria – até à morte. E não, Cristiano Ronaldo não foi o primeiro futebolista a dar o nome a um aeroporto. Em 2006, no dia em que, se fosse vivo, faria 60 anos, o aeroporto de Belfast foi rebaptizado com o seu nome. Lá como cá, a decisão não foi pacífica; em algumas sondagens, 52% eram a favor e 48% dos inquiridos eram contra.
Pouco antes disso, em Março, já tinham dado o seu nome a um avião e Sarah Fabergé, bisneta do grande joalheiro dos czares das Rússias, fizera uma edição limitada de 68 ovos de ourivesaria, cuja venda reverteu para a fundação que leva o nome do futebolista e que promove a saúde através da prática do desporto, combatendo a toxicodependência e o alcoolismo.
No primeiro aniversário da sua morte, o Banco do Ulster emitiu uma série comemorativa de um milhão de notas de cinco libras; um milhão de notas, esgotadas ao fim de cinco dias.
Também eu cedi ao mito. Conheci os lugares de infância, estive à porta da casa dos pais, o seu eterno porto de abrigo no nº 16 de Burren Way. Foi para lá que em Janeiro de 1949 se mudaram Dickie e Ann, juntamente com os seus dois filhos, George e Carol. Em 1952, o casal teria outra criança, Barbara, já nascida em Burren Way. Seguir-se-iam as gémeas Julie e Grace, em 1963, e o único irmão, Ian, em 1966.
O George Best Trail, um percurso turístico desenhado pela edilidade de Belfast, passa por lá, como passa pela Eddie Spence Chip Shop, uma instituição histórica da zona leste da cidade, onde comi um intragável fish and chips servido pelo dono, habitual veraneante em… Albufeira.
George Best adorava estar tardes inteiras no Spence’s Chip Shop, quando não ia ver filmes nas matinés de sábado ao Ambassador Cinema ou comer gelados no Desano’s Ice Cream Parlour. Vi todos esses sítios em busca do génio, do talento único. Ou dos seus fugazes vestígios.
Há dezenas de livros sobre ele, inclusivamente uma autobiografia, “Blessed”, de 2002, e umas memórias familiares, escritas pela filha Calum, “Second Best. My Dad and Me”, de 2016. Dos que conheço, o melhor e mais vibrante é da autoria de Duncan Hamilton. “Immortal. The Biography of George Best”, de 2014, não fica atrás, de modo algum, de outras grandes biografias de futebolistas que, de uma forma ou doutra, trilharam caminhos sinuosos e trágicos semelhantes aos de George Best, nascido em Belfast a 22 de Maio de 1946 e falecido em Londres a 25 de Novembro de 2005.
Entre esses livros, destaque absoluto para “Estrela Solitária. Um brasileiro chamado Garrincha”, de Ruy Castro, mas Garrincha é Garrincha e Ruy Castro é Ruy Castro. No entanto, Duncan Hamilton não é menos dotado, excepto no humor e graça tropicais, naquela forma especial-sensualíssima de dizer e de contar as coisas. Não por acaso, Simpson ganhou duas vezes o William Hill Sports Book of the Year, sendo autor de vários livros sobre o desporto no Reino Unido. Um especialista, portanto.
Esta biografia de George Best, como seria de esperar, é parcial e hagiográfica. O estilo, poderoso, prende-nos e comove-nos a cada página, pois sabemos o desfecho da história começada em Belfast, uma cidade ainda hoje marcada pela presença em cada esquina das cinzas do terror e da violência. Conhecemos os dias de escola, onde George se distinguiu como excelente aluno, as partidas de futebol nas ruas de Belfast, a descoberta do seu talento por um homem notável, Bob Bishop.
Os pais, Dickie, operário nos estaleiros, e Ann, de uma beleza estranha, ambos desportistas na juventude e, no caso do pai, na idade adulta: até aos 37 anos, Dickie Best foi futebolista amador, ainda que, segundo Duncan Hamilton, tenha sido da mãe que George herdou os genes que o notabilizaram em campo. Quando o seu dom começou a dar nas vistas, permitindo-lhe aspirar ao que todos queriam na altura, fugir dali para fora, o pai avisou-o: “há poucas formas de sair de Belfast”, disse-lhe, “podes ser boxeur, jogar bilhar ou ser futebolista”.
A partida para Manchester teve aspectos épicos: Best foi uma vez a Inglaterra, mas subitamente arrependeu-se e regressou a casa, cabisbaixo e derrotado. Talvez pressentisse que naquela viagem se jogava muito mais do que o poder e a glória, que na fama e no dinheiro, nas mulheres e no álcool que se seguiriam pouco depois estaria a sua lenda perene, mas também a sua queda e desgraça.
Por fim partiu, assinando pelo Manchester United sob os auspícios de outra personagem central, o mítico treinador Matt Busby. “I think I’ve got you a genius”, a frase célebre, dirigida por Bob Bishop a Matt Busby, ficaria para sempre inscrita em todas as memórias de Best, ainda que este seu biógrafo, Duncan Hamilton, tenha as mais sérias dúvidas sobre se é verdadeira ou não passa do domínio da lenda, como tantas coisas que se dizem e escrevem sobre ele.
Em Old Trafford conheceu a fama ao lado de Bobby Charlton, com quem manteve uma relação próxima e fraterna, mas de permanente e surda rivalidade. Calvo, homem de família, de modos britânicos e fatos clássicos, Charlton representava o ‘establishment’ conformista e cinzento, competente e certinho.
Em contrapartida, Best era a encarnação do desregramento anárquico e do génio em bruto. De longos cabelos e olhar lânguido e doce, o “quinto Beatle”, como lhe chamaram, acumulava casos amorosos ou aventuras sexuais, de preferência com louras de longas pernas, voava em carros de altíssima cilindrada, vestia roupas extravagantes (e chegou a ser dono de uma boutique), faltava sucessivamente aos treinos e aos jogos e, pior que tudo, bebia muito, nas raias da loucura. Contudo, nunca consumiu drogas e sempre teve uma ligação profundíssima à sua família e também à governanta da casa onde passou os primeiros tempos em Manchester, a sua protectora atenta e extremosa, outra personagem central da sua história, Mary Fullaway.
Nos relvados, as fintas estonteantes, a vitória sobre o Benfica, na Luz, nos quartos-de-final da Taça dos Campeões Europeus, por 5-0. E, naquela que é considerada a sua melhor exibição individual, o 1-0 sobre a Selecção Escocesa, em Windsor Park. Nomeado Jogador do Ano e Jogador Europeu do Ano em 1968, chegou a entrar em campo sob a ameaça séria de ser alvejado pelo IRA, num jogo de altíssima tensão. Vencedor da Taça dos Campeões, etc., etc.
Depois, o declínio e queda, as escapadelas para o Sul de Espanha, mulheres atrás de mulheres, a solidão acompanhada a álcool, a ultramoderna Che Sera, nome da sua casa espampanante em Manchester. Multas de trânsito e não só, acusações de indisciplina desportiva, suspensões e castigos do Manchester United.
Em meados e final dos anos 1970, o derradeiro golpe. A morte da mãe, vítima de alcoolismo, em 1978, as mudanças constantes de clubes de segundo plano, a declaração de falência em 1982, os internamentos sucessivos em clínicas de reabilitação. Best perdera o favor dos deuses e já ninguém achava graça às suas tiradas de antologia: “In 1969 I gave up to women and alcohol – it was the worst 20 minutes of my life”. Ainda assim, um dito vulgar em Belfast, repetido à saciedade com orgulho bairrista, continua a proclamar: “Maradona Good / Pelé Better / George Best”.
Em 1984, é libertado após passar seis semanas na prisão. Divorcia-se em 1986, casa-se em 1995, divorcia-se em 2004. Em 2002, foi internado para um transplante ao seu fígado cansado e gasto de tantos excessos.
Quando se aproximava do fim, deixou uma mensagem aos fãs e ao mundo: “Don’t die like me”. Morreu em Kensington, Londres, em Novembro de 2005. Levaram o corpo para o Belfast, onde foi recebido com pompa e circunstância, num cortejo ladeado por milhares e milhares de pessoas, transmitido em directo pela BBC. Antes de o transportarem rumo ao castelo de Stormont, para a celebração do serviço fúnebre, colocaram o caixão na sala de estar da casa dos pais, seguindo a tradição de Belfast. Burren Way, nº 16. Quando lhe disse a morada, o motorista de táxi nem sabia onde era.


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