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terça-feira, 9 de maio de 2017

DIA DA VITÓRIA NA RÚSSIA



A Praça Vermelha de Moscovo repleta de orgulho nacional. O Dia da Vitória a cada 9 de maio, na Rússia, é a festa mais importante do país. Mais de 10 mil soldados e 100 máquinas de guerra desfilaram no centro da capital russa para homenagear os que lutaram e perderam a vida na Segunda Grande Guerra Mundial.
O presidente russo, Vladimir Putin, no tradicional discurso, saudou o país, “neste dia da Vitória, dia onde a grandeza foi definida pelo povo: os seus atos de bravura sem precedentes pela pátria e a sua contribuição heróica para derrotar o nazismo”.
O presidente russo lembrou ainda os desafios atuais como a luta contra o terrorismo e apelou ao compromisso internacional para avançar com este combate.
Nesta parada foram ainda apresentados novos veículos militares. Por causa das condições meteorológicas desfavoráveis, foi tomada a decisão de cancelar os voos dos aviões e helicópteros da Força Aeroespacial da Rússia.

VÍDEO
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A OPINIÃO DE OUTROS - A Culpa é do Mélenchon



O tempo entre a 1ª e a 2ª voltas das Eleições presidenciais foi marcado por uma campanha, como tenho visto poucas, de ataque à única candidatura de esquerda que se atreveu a vencer, no meio do descalabro que foram os resultados. Sobre o que têm a dizer, à direita, os vários antifascistas de ocasião não me interessa particularmente falar. Pelo menos, até ouvir à direita portuguesa qualquer coisa contra o governo fascista efectivamente existente na Hungria, cujo partido continua a integrar o respeitável PPE, sem sobressalto de maior.

Interessa-me bastante mais a forma como uma certa esquerda europeísta embarcou nesta campanha. Repare-se que estamos bem para lá da questão de saber se Mélenchon deveria ter divulgado o seu voto depois da consulta ao movimento França Insubmissa, consulta essa que estava marcada antes do voto da 1ª volta. Estamos no domínio de uma campanha que visava atribuir a Mélenchon a responsabilidade de uma vitória de Marine Le Pen, do fascismo, da guerra, de todos os males da França, da Europa e do mundo.

Em primeiro lugar, é preciso perceber que o facto de essa campanha assentar essencialmente no pânico e na histeria não quer dizer que os seus instigadores estejam a agir de forma irracional. A campanha contra Mélenchon tem três propósitos inteiramente calculados:

1. A diversão – A primeira razão para a obsessão anti-Mélenchon é a de conseguir não dizer absolutamente nada sobre o descalabro do candidato do PSF e da proposta do Europeísmo de esquerda. É verdadeiramente extraordinária a forma como os entusiastas de Hamon saíram de mansinho ainda os votos não estavam contados. Hamon não ficou só sem votos. Ficou sem amigos. Em toda a esquerda europeísta, não se ouve uma reflexão, uma interrogação, um palpite que seja sobre o grau de descrédito a que chegou a proposta política do europeísmo de esquerda. Um momento que pode ajudar a perceber essa deserção foi aquele em que Hamon se disponibilizou a apoiar Mélenchon numa segunda volta, pondo a esquerda bem antes do europeísmo.

2. A amálgama – A segunda razão é a de forçar a esquerda soberanista num dos pólos que se pretende impingir a todos os povos. Ou se está com a Europa, ou se está com o fascismo. Se o pudor foi impedindo que esta imposição fosse formulada com esta clareza, o colapso do europeísmo de esquerda soltou todas as inibições. À esquerda que não desistiu de o ser só sobraria a possibilidade de se amalgamar com a direita fascista ou a direita ultra-liberal. Mélenchon só se livraria das acusações se, na noite das eleições, tivesse entregue a Macron votos que lhe foram entregues para um projecto incompatível. O preço da salvação para Mélenchon era o suicídio político.

3. A sobrevivência – A terceira razão decorre dessa exigência. A campanha dos europeístas contra Mélenchon é um esforço desesperado para reconquistar à cotovelada o espaço perdido. A esquerda que desistiu de enfrentar a Europa do liberalismo, a esquerda que passou alegremente dos panegíricos a Hamon aos panegíricos a Macron, a esquerda que passou do europeísmo de esquerda para o europeísmo-ponto, trava o seu combate mais virulento contra o resto da esquerda. A França representa em três actos a falência política do europeísmo de esquerda: os 6% de Hamon, o programa de Macron, a campanha contra Mélenchon.

Notará o leitor que não incluo nas motivações da campanha contra Mélenchon qualquer tipo de sobressalto antifascista. Não é por não acreditar que haja gente que pensa seriamente que o melhor curso de acção para Mélenchon teria sido declarar imediatamente o apoio a Macron. Tanto acredito, que continuo a achar que, depois da consulta ao seu movimento, Mélenchon deveria ter dado a conhecer o seu sentido de voto. Mas teria sido desastroso que Mélenchon o tivesse feito na noite eleitoral, curto-circuitando o seu próprio movimento e a consulta que ele próprio convocou. Dizer que ele estaria apenas a dar a sua opinião pessoal é só ridículo. Uma coisa é clara: não há qualquer motivação antifascista que possa motivar este concurso de tiro ao Mélenchon.

Comecemos pelos factos: Mélenchon foi o candidato que melhor combateu a Frente Nacional em todos os seus terrenos: Nos operários (22,4%), nos empregados (23,1%), nos desempregados (27,5 contra 29,9%) e nos jovens (24,6 contra 25,7). Se a Frente Nacional cavalgou nos sectores em que o descontentamento é maior, a França Insubmissa foi a única força capaz de lhe resistir, capaz de combater nesse terreno.

Quanto às transferências de voto, Macron teve 19% de eleitores Mélenchon, 18% de Fillon e 9% de Hamon. Se pensarmos na diferença, entre votos Macron-Le Pen, os contributos líquidos são 12% de Mélenchon, 8% de Hamon e 4% de Fillon. Claro que também se pode falar da proporção de eleitores, em que Hamon ganha claramente 90%, enquanto Mélenchon se fica pelos 73% e Fillon pelos 56%, mas estas contas têm um problema: o que conta é o número de votos. Para que um candidato possa “dar” votos contra Le Pen, primeiro é preciso que sejam ganhos, e quem o conseguiu fazer à esquerda foi Mélenchon. Acresce que Macron e Hamon são dois candidatos provenientes do mesmo espaço político, mesmo que diferentes e mesmo antagónicos, no plano da política económica e social. 

Coloquemos, portanto, as responsabilidades onde elas assentam: o grande motor da extrema-direita em França são as políticas dos europeístas, o único travão é a esquerda de Mélenchon.

Um elemento da campanha particularmente sonso é a ideia de que Mélenchon, com este posicionamento, teria desbaratado a base de apoio que reuniu durante a sua campanha. As sondagens para as legislativas não parecem confirmar esse desejo. As previsões apontam para que Mélenchon perca para as legislativas cerca de um terço do seu eleitorado das presidenciais. Isto significa que acontecerá o mesmo, mas em menor grau, que aconteceu em 2012, quando Mélenchon caiu de 11,1 para 6,9% entre Presidenciais e Legislativas. Esta quebra terá, portanto, muito mais a ver com o escandaloso sistema eleitoral francês do que com qualquer castigo a Mélenchon. Mais uma vez, ninguém parece ter nada a dizer sobre o previsível colapso do PSF.

Finalmente, não deixa de ser sintomático que a esquerda europeísta cada vez mais introduza nas suas análises o grau de qualificação dos eleitores como critério qualitativo do voto europeísta de esquerda. Viu-se com o Brexit, volta a ver-se agora, o que se compreende. É que, por um lado, a quantidade escasseia e, por outro, quem defende a obstinação europeísta condena-se ao completo desaparecimento no eleitorado popular. A grande inovação aqui é o surgimento de uma esquerda que, não apenas se conforma, como celebra esse desaparecimento.

Felizmente, há uma esquerda popular que não desistiu de ser esquerda e de ser popular. Macron foi dos seis candidatos o que menos entusiasmo reunia entre os seus próprios eleitores da 1ª volta, 45% dos quais declararam ter votado nele, não por ser o seu candidato preferido, mas por estar em melhores condições para ganhar. É este o panorama. À medida que o campo europeísta se vai estreitando, política e eleitoralmente, à medida que o europeísmo ultra-liberal se torna o único europeísmo relevante, só há uma força que surge como alternativa à alternativa de Le Pen. Essa força é a França Insubmissa. Que haja uma esquerda que continua, mesmo depois das eleições, a fazer desta força o seu principal adversário é um bom sinal dos tempos. Pelo menos, ficamos esclarecidos. 


ladroesdebicicletas.blogspot.pt

HISTÓRIA DE PORTUGAL - O MASSACRE DO COLMEAL




O Massacre do Colmeal (Kolmenari em lingua lusitânica reconstruída) é uma das páginas mais negras da História da Lusitânia moderna sob jugo e ocupação portuguesa. Muito embora esta tragédia recente para o povo nativo Lusitano que habitava a aldeia do Colmeal (hoje aldeia fantasma mas que antes do massacre em 1956 tinha 14 famílias com no mínimo 60 habitantes e que também era sede de freguesia com 338 habitantes, englobava mais algumas aldeias menores como Bizarril, Luzelos e Milheiro, no concelho de Figueira da Castelo Rodrigo no distrito da Guarda) tenha acontecido a uma escala muito menor dos primeiros massacres perpetrados por portugueses e espanhóis mais os mercenários estrangeiros ao seu serviço que estão hoje na origem da maioria das elites locais portuguesas, quando estes nos primeiros tempos da "reconquista" cristã e (também) depois da fundação de Portucale (ou condado Portucalense, hoje Portugal) por uma elite astur-leonesa de sangue maioritariamente franco-germânico, e portanto de origem estrangeira, este cobarde crime e massacre português cometido durante o regime fascista português contra o nosso povo nativo lusitano (que na época dos acontecimentos foi censurado e silenciado por toda a comunicação social portuguesa, onde jornais e rádios nacionais e regionais nunca escreveram uma única linha sobre este crime), ele também indicia que outros crimes semelhantes terão ocorrido durante o fascismo e durante os últimos anos da monarquia portuguesa ou após as guerras que oposeram miguelistas contra "liberais", cujos vencedores "liberais" levaram depois a uma reforma administrativa que levou à extinção de centenas de concelhos na Lusitânia e noutras regiões de Portugal, contra a vontade das populações locais. Após a invenção de Portugal (ou a fundação do condado de Portucale por uma elite de origem estrangeira, cujas etapas teriam ocorrido em dois séculos diferentes) no século X quando os "cristãos" portugueses e espanhóis (cujos estados após a sua consolidação no plano económico e no terreno militar estão na formação e insticionalização de ambos estes dois "povos" elitistas) invadiram as terras a sul do rio Douro que embora sob administração militar muçulmana pertenciam aos povos nativos que teriam a pôsse das terras conseguidas graças a uma reforma agrária, após ferozes lutas, batalhas e guerras contra mouro-berberes islamizados que teriam o apoio dos lusitanos e de todos os outros povos nativos ibéricos, porque os conquistadores islâmicos ou islamizados teriam devolvido as terras aos povos nativos, tanto os estrangeiros portugueses como os espanhóis (astur-leoneses, castelhanos e elites galegas) teriam cometidos muitos massacres contra os nativos lusitanos durante a conquista das suas terras, não só do ponto de vista militar, como durante os tempos posteriores de imposição da nova "ordem" e das leis dos novos conquistadores portugueses que tará levado à expulsão das suas terras e casas que foram roubadas aos nativos lusitanos para serem entregues aos senhores feudais e mercenários estrangeiros que teriam recebido dos reis e da nobreza elitista portuguesa (toda ela de origem estrangeira e não nativa) a "doação" destas terras, hoje os descendentes dos primeiros senhores feudais e mercenários estrangeiros formam as diferentes elites locais portuguesas. E como é evidente em qualquer parte do mundo, quando um povo ou uma família é expulsa da sua própria terra e casa isso levará à sua resistência contra a injustiça cometida. Não surpreende pois que os primeiros estrangeiros portugueses que se estabeleceram na Lusitânia e nas terras a sul do rio Douro, tenham cometido inúmeros e grandes massacrados contra os povos nativos que defendiam as suas próprias terras. O facto de não haverem registos históriocos nem documentos oficiais portugueses a comprovarem estes massacres não invalida nem poderá negar a sua existência. Massacres como os do Colmeal contra o povo nativo Lusitano e contra os outros povos nativos de Portugal, cometidos pelas "autoridades" portuguesas de forma a defenderem as elites locais, terão sido centenas e não apenas algumas dezenas, evidentemente que a grande maioria terá ocorrido nos primeiros anos da ocupação portuguesa quando atravessaram a margem norte do rio douro e invadiram a Lusitânia e outras terras a sul.
A vida quase sempre decorreu calma e bucólica na isolada e recôndita aldeia do Colmeal, localizada num paradisíaco vale de difícil acesso nas faldas da Serra da Marofa. A pequena comunidade terá sido fundada por pastores lusitanos desde tempos pré-históricos, pré-romanos, pré-cristãos e pré-portugueses. A confirmar este facto local, existe um outro ponto de interesse junto á localidade e que apenas recentemente foi descoberto: as pinturas rupestres. Situam-se junto à povoação nos enormes penedos que ladeiam a ribeira do Colmeal e tratam-se de representações esquemáticas de antropomorfos, datando do 3º Milénio a.C., contudo, a história escrita da aldeia lusitana do Colmeal, a partir da ocupação portuguesa da Lusitânia, transporta-nos para tempos mais recentes, pelo menos ao século XII (1183 é a referência mais antiga que se conhece do local em documentos papais e leoneses antes da referência portuguesa, o rei de Leão D. Fernando II "doou" esta aldeia e outras à Ordem de S. Julião do Pereiro, que seriam por muito tempo sua proprietária). A história do Colmeal não se faz, no entanto, apenas de laboriosos camponeses. Esta é também uma terra de pergaminhos fidalgos da elite local portuguesa, já que aqui terá vivido Pedro Álvares Cabral, o famoso descobridor do Brasil. O “solar” brasonado da família, não obstante a ruína, ainda é visível em lugar de destaque na aldeia. Após o Tratado de Alcanizes, os bens desta Ordem passam para a Ordem de Alcântara, em 1297, e as terras de Riba Côa são integradas na Coroa Portuguesa. As disputas com os espanhóis despovoaram os lugares da serra, e D.Afonso V deu-lhe carta de Couto - terra que não pagava impostos por pertencer a um nobre, com o nome de Colmeal das Donas em 1540. Era senhorio deste povo João Gouveia. Com a morte deste fidalgo o Colmeal das Donas passa a pertencer a Vasco Fernandes de Gouveia (1476), e, com a morte deste, a Fernão Álvares Cabral e D.Isabel de Gouveia. Pais de Pedro Álvares Cabral. Mudanças sucessivas levaram a que a burguesia endinheirada, saída da República, se fosse apoderando dos domínios da nobreza. Os Condes de Belmonte não escaparam e venderam o foro do Colmeal das Donas. Os novos proprietários e as novas elites locais mantinham direitos que remontavam ao tempo das sesmarias, ao mesmo tempo que lavravam à pressa escrituras e delimitavam terrenos. As gentes do Colmeal, os nativos de sempre, por sua vez, habituadas à servidão, continuavam a pagar foro. Desta feita, aos feitores dos novos senhorios. O triste fado da aldeia foi ditado no início da década de 40 com a chegada de um novo rendeiro, que subia as rendas a seu bel-prazer. Valores que atingiram níveis quase impossíveis de suportar. Durante anos os habitantes "mataram-se" a trabalhar para pagar as rendas. Muitos dos ainda sobreviventes desse tempo recordam esses tempos sem saudade, mas lá vão dizendo que, embora as terras «fossem más», «uns lavravam, outros tinham cabras, outros tinham vacas», e a agricultura lá ia dando para viver e pagar aos rendeiros. Mas cada vez mais revoltados com a situação, os habitantes do Colmeal recusaram-se a pagar e, como resultado, tiveram de travar uma longa batalha jurídica que de nada lhes valeu. O processo começou com a acção de despejo para o caseiro da casa dos Cabrais, acusado de deixar de pagar renda ao senhorio, mas anos depois os aldeões passaram à categoria de subarrendatários do mesmo e tratados de igual modo. Por altura das colheitas dois oficiais da justiça chegaram com a sentença final. Mais 25 soldados da GNR fascista. E uma acção de despejo. Estava-se no dia 8 de Julho de 1957.
Em 1527 no primeiro censo oficial a aldeia teria 15 moradores oficiais, não contando com os camponeses e pastores das áreas envolventes nos arredores. No século XVII a aldeia teria 50 habitantes, no início do século XVII teria 80, no século XIX teria 90 habitantes. No início do século XX, inverterá contudo a sua tendência populacional, em 1940 teria só 62 habitantes pertencentes a 14 famílias distribuídas por 12 fogos ou residências. Se é verdade, como já referimos, que inicialmente a posse do Colmeal pertenceu à Ordem Militar de Cavalaria de São Julião do Pereiro, sabe-se, igualmente, que séculos mais tarde o senhorio da povoação passou para as mãos da família dos Cabrais, da Casa de Belmonte. O avô materno de Pedro Álvares Cabral, Vasco Fernandes de Gouveia, possuía mesmo o título de Senhor do Colmeal e, durante gerações, a presença dos donatários e seus familiares seria constante no “solar” dos Cabrais existente na povoação. Não é, por isso, difícil de acreditar que o famoso navegante aqui também tenha residido. Não há, no entanto, qualquer prova quanto à possibilidade desta personalidade aqui ter nascido, como defende alguma da tradição oral na região. A historiografia oficial refere, de resto, que terá nascido em Belmonte entre 1460 e 1470. Foi D. Afonso V quem deu-lhe carta de Couto em 1540, era senhor desse povo João Gouveia. Com a morte do fidalgo andou aquela terra de senhor para senhor até acabar nas mãos de Pedro Álvares Cabral. Curiosamente terá sido também por essa altura que é construída a igreja do Colmeal. Da presença dos Cabrais (ou de outros pretendentes e senhores feudais vindos de outras paragens que trocavam ou compravam o feudo, só o povo nativo era local) na aldeia ficou o seu “solar” e o brasão, lavrado numa pedra avermelhada, representando duas cabras. A presença desta família e dos seus símbolos terá sido tão marcante que, sintomaticamente, a lenda que explica a origem da aldeia recorre de uma forma frequente a elementos que se relacionam de forma inegável com os Cabrais e a sua pedra de armas esculpida na aldeia. Para os portugueses e as autoridades, a aldeia foi apenas um feudo da elite local portuguesa, dos Cabrais, porque os seus habitantes mais pobres, camponeses e analfabetos, não tinham história nem direitos, eram pouco mais do que escravos do trabalho, do tempo e da injustiça de um país ainda hoje (no século XXI) medieval e feudalista. E só este facto histórico-social interfere com a existência que tem tanto de milenária como de comunitária, patorial, camponesa e despretensiosa do povo local. Até ao dia em que as "autoridades" portuguesas ao serviço duma elite local, condenaram a povoação e os seus habitantes à morte. A paz, as tradições, o silêncio e a tranquilidade em que vivem os seus habitantes estáva prestes a desaparecer, brutalmente...
O princípio do fim da aldeia do Colmeal, que daria origem à destruição da aldeia, às expulsão dos aldeões das suas casas e terras e ao massacre com algumas dezenas de mortes dos seus habitantes nativos mais resistentes contra a injustiça portuguesa tivera início já antes de 1956. Mas a 8 de Julho de 1957, eram pouco mais das dez horas da manhã, um destacamento da Guarda Nacional Republicana (GNR) composto por 25 praças e 3 oficiais (um militar para cada dois habitantes, isto só podia acontecer se toda a aldeia resistisse e estivésse a lutar pelas suas casas e terras) decididos e fortemente armados (os aldeões, pastores e camponeses inocentes não tinham armas) com metralhadoras e preparados para o pior cenário, irrompem pela aldeia e, em poucas horas, surpreende e expulsa as 14 famílias de cerca de 60 aldeões e camponeses pobres que ali viviam, descendentes de gerações e gerações de lavradores e pastores que desde sempre, desde tempos lomngínquos e pré-históricos tal como os seus ancestrais mais antigos, aí viveram, habitaram, trabalharam e morreram, naturalmente. Nada impediu as autoridades de rebentarem com as portas das casas e levarem os poucos haveres desta gente simples que se refugiou na maioria nos montes e aldeias em redor. Os populares não aceitaram e a GNR viu-se obrigada a intervir para expulsar os resistentes no dia 10 de Julho de 1957. Segundo os populares houve casas queimadas e registaram-se mesmo alguns mortos entre os populares da localidade. Foi a primeira vez que tal sucedeu em Portugal, uma população ser expulsa colectivamente do de uma localidade inteira. Da localidade restam as casas que se encontram abandonadas. Inclusive, na velha igreja quinhentista, se baptizaram, casaram e enterraram. Uma mais que discutível e injusta decisão judicial, só possível sob o autoritarismo do regime fascista de então e pela impunidade de uma elite local, transformava o Colmeal numa aldeia fantasma. E toda a povoação desapareceu. E a maioria dos seus habitantes fugiu e refugiou-se nas aldeias vizinhas ao cobarde massacre perpretado pelas autoridades portuguesas. Hoje, só as ruínas patrimoniais e a memória colectiva das gentes, dos poucos habitantes ainda sobreviventes e dos lugares resiste, ainda e sempre, ao invasor. Para nos contarem o pouco que se conhece. Para que o massacre nunca seja esquecido pelas gerações vindouras, para que o silêncio nunca nos esmague.
Como foi possível acontecer? Como foi possível na segunda metade do século XX, em plena Europa e num país europeu, como Portugal, acontecer um Massacre contra um povo nativo, inocente e indefeso como este? Cerca de cinquenta anos depois a interrogação (a vergonha para as elites tugas e a indignação para o povo nativo lusitano) continua a incomodar os sobreviventes deste dramático acontecimento ou "episódio" ocorrido em Portugal, mais exactamente no interior da região da Lusitânia amordaçada. ainda hoje o povo nativo Lusitano mais consciente da sua verdadeira identidade étnico-cultural lusitana e não portuguesa, espera um pedido de desculpas das autoridades e dos governantes portugueses, em vão... Como é possível alguém ser expulso da sua terra, da terra onde nasceram e viveram os pais, os avós, os trisavós, os seus directos ancestrais mais antigos vindos de tempos pré-históricos que já habitavam este lugar antes do aparecimento dos portugueses... Alguns deles, de resto, enterrados no cemitério que se desenvolve em torno da igreja paroquial, também ela bem no centro na aldeia. Como foi possível um particular (membro duma elite local tuga) reivindicar para si a posse de uma antiquíssima e histórica aldeia que albergou sucessivas gerações de pastores e camponeses? Reivindicar a posse dos terrenos que a circundavam, ainda se poderá compreender. Mas a aldeia!? Uma aldeia antiquíssima que existia há séculos e que era, de resto, sede de freguesia... Reivindicar a posse de uma povoação, das suas casas, ruas, do cemitério e da velha igreja edificada há mais de quinhentos anos, é de facto incompreensível nos dias de hoje. Mas não o foi, durante o regime autoritário, ditatorial e fascista de Salazar, há menos de cinquenta anos.
Um pouco sobre as causas da história. Os factos remontam aos anos iniciais do século XX antes dos anos '40 do século XX, quando um novo "feitor" anunciava já a desgraça, que afinal a aldeia já não era foro mas que pagavam renda. E todos passavam a andar endividados. Porque o feitor subarrendatário não pagava a renda há quatro anos àquela que era, de acordo com uma escritura de 1912, à nova e legítima proprietária dos terrenos dos herdeiros dos condes de Belmonte. A colheita mal dava para comer quanto mais pagar ao arrendário: eram impostos da burra, dos cães e da carroça dos machos, masi a côngrua, um alqueire de trigo... Com efeito, em meados dos anos ’50 do século XX, começa a construção da tramóia, Rosa Cunha e Silva a nova herdeira das terras onde se situava a aldeia, queria-se dona de todo o Colmeal, e sob o pretexto de que os habitantes do Colmeal, ao contrário do que até então haviam feito, se recusavam agora a pagar os foros e rendas devidos pelos trabalhos agrícolas que aí desenvolviam, moveu um processo judicial contra aquela comunidade. E foi consultar o seu advogado, um burguês "opositor" do regime com passado, um "socialista" que entre os seus vícios burgueses e hipócritas meditava em "part-time" nos dramas dos pobres, Manuel Vilhena, que baralhou as leis e transformou a povoação anterior à nacionalidade numa quinta privada. O pleito correu durante três anos no Tribunal de Figueira de Castelo Rodrigo. Analfabetos na sua esmagadora maioria, incapazes de perceber verdadeiramente o que estava em causa (afinal não era a “sua” aldeia?), impossibilitados de se socorrer de bons advogados, os pouco mais de cinquenta habitantes do Colmeal são obrigados, por ordem judicial, a ser expulsos da sua terra. O mandato de despejo é rapidamente e em força posto em pratica pela Guarda Nacional Republicana com 28 militares armados até aos dentes às coronhadas e aos tiros que, em poucas horas, forçou a saída dos habitantes das suas casas dando-lhes apenas tempo para reunirem os seus poucos e parcos haveres. Mas houve muitos que resistiram contra a injustiça de lhes quererem roubar a sua aldeia, as suas terras, as suas casas, a sua família, a sua história, as suas vidas... E pagaram por isso. Foram assassinados e esquecidos pelo poder instalado em Portugal.
Durante os anos seguintes, após a expulsão e o massacre, a muito custo, a maioria dos antigos habitantes do Colmeal foram refazendo a sua vida. Uns emigraram para o estrangeiro (Brasil e França) ou para as grandes cidades do litoral português como Porto e Lisboa. Outros optaram por permanecer no concelho, nomeadamente noutros lugares da freguesia como Luzelos e Bizarril (onde hoje se encontra a Junta de Freguesia, a igreja paroquial e o novo cemitério). A pergunta, essa no entanto, persiste: como foi possível ter acontecido tudo isto? Estranhamente, ou talvez não, ou talvez sintomaticamente, quando entra no jogo toda a especulação imobiliária e financeira envolvente, a alterarem, a baralharem e a deturparem ainda mais as "regras" do jogo, a história deste episódio judicial teve um curioso desenlace. A dona e senhora, agora única, do Colmeal acabou por ter que vender, como forma de pagamento, estes seus domínios ao próprio advogado do diabo! Um de tal elitista local com o nome de Manuel Vilhena. Hoje o Colmeal não passa de uma grande quinta agrícola que engloba a arruinada aldeia fantasma, coberta de vegetação, e na qual se destaca a velha igreja medieval, dedicada a S. Miguel, que vem sendo objecto de contínuos e profundos atentados ao longo dos anos tendo-se transformando, também ela, numa triste ruína.
Ainda hoje considerado sede de freguesia (a freguesia devido à desetificação humana das terras do interior patrocinada por sucessivos governos anti-regionalistas e anti-populares portugueses tem hoje apenas 58 habitantes distribuídos por 4 aldeias, mas a do Colmeal tem 0 habitante), o Colmeal foi, por despacho governamental datado de 1985, elevado ao estatuto de Imóvel Classificado. De nada lhe valeu. O saque e as delapidações ao património edificado (nomeadamente à igreja) prosseguiram. Só a decadência e a ruína acompanham o silêncio absoluto e sepulcral que se vive neste bucólico vale encaixado no sopé da Serra da Marofa. Mas nem sempre foi assim. Apesar de nunca ter sido uma grande aldeia, o Colmeal conviveu durante séculos e milénios com os gritos das crianças, o ruído dos carros de bois, o bulício da deslocação dos rebanhos e os tradicionais cantares dos homens e mulheres envolvidos nos trabalhos agrícolas e tradições milenárias. À data dos acontecimentos, as características topográficas e naturais do Colmeal contribuíram para que do ponto de vista económico-agrícola, fosse considerada, pelo menos em comparação com a generalidade da vizinhança, como uma zona bastante produtiva. Nestes terrenos se produzia imenso centeio e trigo. A abundância de água, nem sempre habitual nesta região, permitia igualmente uma assinalável produção hortícola e alguma vocação para a pastorícia de ovinos e caprinos. As amendoeiras e as oliveiras tão características desta paisagem, estavam também aqui presentes (hoje cada vez mais substituídas pelo eucalipto). Contudo as mais afamadas produções do Colmeal foram, durante séculos, o mel (que estará, de resto, na origem do próprio nome da povoação), os pimentos, as rolas e as cebolas. Estas duas últimas chegaram, aliás, a fazer parte da própria designação da aldeia já que esta era, muitas vezes, designada por Colmeal das rolas ou Colmeal das cebolas. A generalidade das ruínas corresponde a antigas e tradicionais habitações de piso térreo, predominando a tradicional arquitectura de alvenaria em xisto sem revestimento, com o esporádico recurso ao granito nalgumas componentes estruturais, como é o caso das padieiras, ombreiras e esquinas dos edifícios. Os palheiros e cortes apresentam características semelhantes, embora nestes últimos a cobertura fosse através de materiais perecíveis e não de telha, ao contrário do que acontecia nas habitações onde, apesar do abatimento dos telhados, se detecta ainda essa solução. Do conjunto da povoação salientam-se dois edifícios: a igreja e o “solar” dos Cabrais. A igreja, belíssimo imóvel que terá tido a sua provável origem no século XV e denota uma clara inspiração românico-gótica, não obstante a ruína, a falta de cobertura e a invasão da vegetação, brinda-nos ainda com alguns dos frescos que decoravam originalmente as suas paredes, como é o caso de uma cena de Adão e Eva no paraíso.
Revisionando e explorando as memórias e lamentações dos seus antigos habitantes que viveram os acontecimentos e expõem toda a verdade nua e crua da história desta aldeia "abandonada" ou "fantasma" como dizem alguns portugueses, cujo povo nativo foi vítima de um cobarde massacre, com um grande número de mortos, segundo testemunhos da maioria dos populares que viveram os trágicos acontecimentos em 1957. Entre os testemunhos (e testemunhas) daqueles que viveram a tragédia ou o Massacre do Colmeal, sabemos que ainda hoje há 20 famílias de descendentes dos antigos habitantes do Colmeal que procuram recuperar a propriedade das casas que foram roubadas aos seus antepassados Lusitanos, para eles A ALDEIA DO COLMEAL NÃO É A QUINTA DADA AOS QUIRINOS! Para eles aquele massacre e aquela vergonha contra um povo não pode ficar impune. Porque "aquilo não se fazia!".






skywaterland.blogspot.pt

EU APOIO SÉRGIO MARTINS NA SUA RECANDIDATURA PELA TRANSPARÊNCIA, TRABALHO E COMPETÊNCIA


Não páram !


Loures não vai desistir de ter metro na cidade, garante Bernardino


As declarações de Bernardino Soares surgem na sequência do anúncio feito esta manhã pelo Governo de que vão ser criadas até 2022 mais duas estações de metro na cidade de Lisboa (Estrela e Santos).

"O Metropolitano de Lisboa deve servir os concelhos da Área Metropolitana e, por isso, não pode deixar de equacionar os milhares de pessoas que todos os dias se deslocam de Loures para Lisboa e não têm uma verdadeira alternativa ao transporte individual", afirmou o autarca, em declarações à agência Lusa.
Nesse sentido, Bernardino Soares sublinhou que a chegada do metro à cidade de Loures "será uma das reivindicações mais fortes para próximos anos".
"Tudo faremos para que se continue a pôr em cima da mesa o planeamento e a execução de uma ligação do metropolitano de Lisboa à cidade de Loures. Não faz sentido que um concelho com 220 mil habitantes não tenha uma verdadeira alternativa", reiterou.
O autarca de Loures sublinhou ainda que uma ligação de metro entre a cidade de Loures e Lisboa iria contribuir para descongestionar o tráfego automóvel que entra todos os dias na capital.
"É uma necessidade imperiosa. Traria ganhos económicos e ambientais. Está-se a gastar dinheiro que poderia perfeitamente ser poupado", atestou.
O Governo anunciou hoje que o Metropolitano de Lisboa vai ter mais duas estações até 2022 - Estrela e Santos-, estando previstas também estações nas Amoreiras e em Campo de Ourique, embora nestes dois casos sem uma data prevista de conclusão.
De acordo com o plano de desenvolvimento operacional da rede, apresentado em conferência de imprensa, em Lisboa, está previsto o prolongamento da Linha Amarela do Rato ao Cais do Sodré, com duas novas estações na Estrela e em Santos.
O custo desta obra é de 216 milhões de euros, com recurso a fundos comunitários e a empréstimo no BEI --- Banco Europeu de Investimento.



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Nazim Hikmet ~ Carta ao filho



 



Carta ao filho

  

Não vivas sobre a terra como um estranho
Um turista no meio da natureza.
Habita o mundo como a casa do teu pai.
Crê na semente, na terra, no mar.
mas acima de tudo crê nas pessoas.
Ama as nuvens,
as máquinas,
os livros,
mas acima de tudo ama o homem.
Sente a tristeza do ramo que murcha,
do astro que se extingue,
do animal ferido que agoniza,
mas acima de tudo
Sente a tristeza e a dor das pessoas.
Alegra-te com todos os bens da terra,
Com a sombra e a luz,
com as quatro estações,
mas acima de tudo e a mãos cheias
alegra-te com as pessoas.



Nazim Hikmet, (1902 - 1963) c. 1960.

Traduzido do inglês por Carlos Eugênio Marcondes de Moura.

Escritor e poeta turco nascido em Salonica, Grécia, então parte do império otomano, que, perseguido por suas idéias políticas, marcou profundamente a literatura turca ao romper com a tradição islâmica e sob a influência dos futuristas russos, propôs a despoetização da poesia. Pensando seguir uma carreira militar, entrou para a academia naval de Istambul e serviu na Marinha, da qual foi expulso (1919) por atividades revolucionárias. Partiu para Moscou, onde estudou ciências políticas e sociais por cinco anos, na Universidade Comunista de Moscou. Regressou à Turquia (1924), após a proclamação da república e tornou-se conhecido com seus primeiros poemas, de cunho patriótico. Condenado (1938) pela suposta participação num complô, após ser posto em liberdade (1950) por força de uma intensa campanha internacional, radicou-se então em Moscou, onde morreu. Publicou as coletâneas 835 satir (1929) e 1 + 1 = 2 (1930), os poemas históricos Sesini kaybeden sehir (1931) e Benerci kendini niçin öldürdü? (1932), as peças para teatro Kofatos (1932) e Unutulan adam (1935) e lançou uma autobiografia em Berlim (1961).



daliedaqui.blogspot.pt


Os independentes e os partidos: da mercearia ao gourmet

 

Diz o discurso politicamente correcto que ser um candidato “independente” a uma qualquer eleição é uma garantia de seriedade, competência, rigor, e outras maravilhas à face da terra. Ninguém pergunta o que significa ser “independente” porque se pressupõe que quem se declara “independente” pretende demarcar-se dos partidos políticos.
Rui Moreira, o independente mais famoso do momento, deixou recentemente numa sessão de aconselhamento de outro candidato dito independente, o ex-bastonário da Ordem dos Médicos,  José Manuel Silva, candidato à câmara de Coimbra, algumas ideias sobre o que é ser independente. Disse Rui Moreira:
Moreira apontou também as “vantagens das candidaturas promovidas por grupos de cidadãos eleitores”:
A crer em Rui Moreira, o conceito de “independente” define-se exclusivamente face aos partidos políticos. As suas palavras contêm subjacente um pensamento anti-política, apesar de não o assumir claramente e, pelo contrário, aconselhar o ex-bastonário a “não abrir guerra aos partidos” e a “não dizer mal” deles. Trata-se de um conselho retórico como se provou com a afirmação de que convidaria Manuel Pizarro para a sua lista se este abdicasse da sua condição de membro de um partido político (o PS). Isto é, Moreira reconhece que Pizarro é leal e competente mas essas qualidades são prejudicadas e mesmo anuladas pela sua qualidade de membro do PS.
Os conselhos que deixou na  prelecção ao seu “colega” candidato a Coimbra ficam mais claros quando lhe recomenda que deve “afirmar-se como “apolítico”” e, pasme-se, não deve “revelar todas as ideias que tem”. Por isso, “não deve dizer mal dos políticos” mesmo que, como é o caso do próprio Moreira, pense mal deles. Quem pensava que os políticos são dissimulados e mentirosos e que é nos independentes que reside o rigor e a transparência tem aqui motivo para reflexão.
O conceito de “independente” de acordo com o presidente da câmara municipal do Porto exclui assim ligações a negócios e empresas nacionais ou multinacionais, a instituições públicas ou privadas, a credos religiosos, a associações empresariais ou desportivas, etc. etc.. Em sua opinião, apenas os partidos políticos provocam “dependências” e tratam de “mercearias” e quotas partidárias”. Isto é, as “mercearias” e as “quotas” dos independentes são para os seus e aí deixam de ser “mercearia”. Serão “gourmet”?
Será que Rui Moreira sonha com uma democracia sem partidos, ao menos ao nível local? Ideias perigosas, dir-se-ia, se elas não viessem de um independente que caíu nas graças de comentadores e analistas.


vaievem.wordpress.com

Um presidente de laboratório


(Por José Goulão, in Abril Novo Magazine
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Medo, propaganda como pilar da mentira política e estado de excepção são os principais panos do cenário das eleições presidenciais francesas, nas quais a enxurrada de análises, pareceres, conjecturas e previsões é inversamente proporcional ao esclarecimento e consciencialização dos franceses sobre decisões determinantes para o seu futuro.
Mais do que isso, o discurso e os comportamentos da maioria dos políticos e dos media empenhados em dar credibilidade ao que não passa de uma farsa de democracia escondem os desmandos que irão atingir a generalidade dos cidadãos eleitores.
Este jogo perverso, em que se estrangula o direito das pessoas a decidirem sobre a sua vida enquanto são ludibriadas quanto às hipóteses de escolha, tem como provável vencedor o candidato que mais escondeu sobre si e as suas propostas: Emmanuel Macron, o falso socialista, falso centrista, ex-membro do staff de Sarkozy, ex-ministro de Hollande e que, apesar de há poucos meses ainda ter a pasta governamental da Economia, se apresentou «de fora do sistema» e «contra o sistema», prometendo uma «revolução política» que já está «em marcha».
Daí a designação do partido que formou – En Marche – uma entidade talhada para fazer eleger um presidente de laboratório capaz de agir como marioneta dos grandes interesses mundiais, projecto este que centralizou vastos apoios de bancos transnacionais, das grandes empresas da Bolsa de Paris e de diversas fundações, entre as quais a norte-americana New Endowment for Democracy (NED), conhecida pelo seu patrocínio de golpes de Estado «democráticos», da América Latina ao Médio Oriente, passando pela Ucrânia. Por isso se juntaram ao En Marche, como «conselheiros», alguns diplomatas neoconservadores norte-americanos alinhados com Obama, Hillary Clinton e as facções das agências de espionagem sob sua influência.
Não surpreende, por isso, que a finalíssima presidencial em França seja, afinal, uma réplica da recente catástrofe norte-americana que selou o esvaziamento da democracia enquanto instrumento da genuína capacidade popular de decidir.
A alternativa deixada aos eleitores, nos Estados Unidos como em França, nada tem a ver com os reais interesses e direitos das pessoas, apenas coloca uma baia entre duas roupagens para a mesma anarquia neoliberal: o nacionalismo de inspiração fascista, tirando proveito da degradação das condições sociais e de vida da maioria da população, assumindo frontalmente as suas orientações xenófobas e racistas; ou o neoliberalismo sem fronteiras, no caso francês ancorado no autoritário sistema económico, financeiro e monetário na União Europeia e teleguiado pela NATO.
Neste quadro teve um significado exemplar a manifestação de fraternidade entre o ex-futuro primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, e o próximo presidente francês, Emmanuel Macron, testemunhada publicamente na Festa do Unità, por sinal o histórico jornal operário de que o americanizado Partido Democrático se apropriou, assaltando o património do dissolvido Partido Comunista Italiano (PCI).
Não é difícil estabelecer um paralelo entre os duelos Trump-Clinton, Le Pen-Macron, e mesmo Beppe Grilo-Renzi, como exemplos crus do esvaziamento da democracia representativa e da emergência de uma nova variante da alternativa bipolar; agora, o pensamento único neoliberal oscila cada vez mais entre o nacionalismo em ascensão e o sistema dirigente internacional sem fronteiras, que até aqui tem assentado numa bipolaridade entre a direita conservadora e os sociais-democratas da «terceira via», ao estilo de Tony Blair, François Hollande e Martin Schulz.
O caso francês é mais uma demonstração de como o pensamento único que sustenta a política de governo do capitalismo internacional, uma vez chegado ao estado de anarquia de mercado, está em transição para se instalar na extrema-direita; dispensa assim o recurso a formas mesmo adulteradas de social-democracia, pelo que os Partidos Socialistas vão implodindo em ritmo de dominó.
Assim sucedeu em Itália, na Grécia, na Alemanha através da coligação acrítica com Merkel, na Holanda, na Bélgica, agora em França, tal como existem indícios coincidentes no Reino Unido – pelo cerco anárquico a Corbyn – e em Espanha. No espaço dos países saídos da esfera de influência soviética há muito que o pensamento único já cristalizou na extrema-direita, ou mesmo no fascismo, podendo dizer-se que a democracia pluripartidária mal chegou a vigorar. Nem os países nórdicos escapam à tendência: basta atentar na deriva actual da social-democracia, que durante décadas dominou a ponto de se identificar praticamente com os Estados.
Não se estranhe que este fenómeno que ataca os partidos da social-democracia seja identificado como implosão. Retomando o caso francês, há muito que o ex-primeiro ministro Manuel Valls, conhecido pelas suas actuações xenófobas e anti refugiados idênticas às de Marine Le Pen, vem defendendo a transformação do Partido Socialista numa outra entidade e com outro nome.
«O nacionalismo não irá gerir o neoliberalismo, nem criar novas insónias na União Europeia, estas sim as verdadeiras inquietações geradas por Le Pen.»
Muito mais claro ainda foi o presidente cessante François Hollande, que em 2015 falava assim do Partido Socialista que o elegeu: «É preciso um acto de liquidação. É preciso um hara-kiri. É preciso liquidar o PS para criar o Partido do Progresso».
Se bem o pensou, melhor o fez, dir-se-á ao observar a situação do PS nas presentes eleições. Depois de preparado o terreno através da artimanha das primárias partidárias, uma ficção de democracia para descaracterizar e subverter a democracia, o processo culminou numa aberração que liquida, de facto, o Partido Socialista: foi escolhido um candidato que não chegou aos dez por cento, enquanto os barões do partido, entre eles o presidente Hollande e o ex-primeiro ministro Manuel Valls, fizeram campanha pelo candidato de outro partido que mal viu a luz do dia: Emmanuel Macron.
Aí está En Marche, criado em laboratório com sotaque norte-americano para fazer eleger um presidente de aviário, numa campanha onde o debate de ideias e de programas foi suprimido, substituído pelo duelo entre retratos de Photoshop animado pelo marketing de detergentes, num ambiente de medo suscitado pela combinação do terrorismo com o estado de excepção.
A esquerda, em torno de Mélenchon, quase conseguiu meter um pauzinho na engrenagem, mas a convergência dos efeitos do terrorismo, da austeridade, da supressão de direitos, do tratamento dado pelo governo à vaga de refugiados catapultou as grandes bolsas de excluídos, de trabalhadores revoltados, de desempregados e dos desfavorecidos das cinturas das grandes cidades para os braços de Marine Le Pen.
Marine Le Pen, essa sim ainda no exterior do sistema, não terá condições para fazer frente ao cilindro compressor da clique dirigente – direitas e restos do PS – pelo que a França e o resto do mundo farisaicamente preocupados com a xenofobia e o racismo da Frente Nacional poderão respirar de alívio. O nacionalismo não irá gerir o neoliberalismo, nem criar novas insónias na União Europeia, estas sim as verdadeiras inquietações geradas por Le Pen.
A tarefa será entregue a Emmanuel Macron, o candidato anti-sistema apresentado pelo próprio sistema, o eleito de Hollande, Valls, Juppé, Juncker, Merkel, Schulz, Sarkozy, Fabius, Fillon, Strauss-Khan, Lagarde, Schauble, Hillary Clinton, Obama, da NATO, da União Europeia, de Israel.
Macron, o candidato da Fundação Rockfeller, dos banqueiros Rotschild, promovido de jovem dirigente da French-American Foundation para o staff de Sarkozy no Eliseu, e depois para ministro da Economia de Valls e Hollande, após o tradicional tirocínio conspirativo no conclave de 2014 do Grupo de Bilderberg.
Como ministro da Economia, Emmanuel Macron fez aprovar um novo pacote laboral persecutório e austeritário, através das condições autoritárias proporcionadas pelo estado de excepção que dura há mais de um ano e meio e sob o qual – que não se perca tal aberração de vista – se realizam as eleições presidenciais. Esse pacote laboral reproduz as exigências da comunidade dos grandes patrões franceses, os senhores do CAC 40 da Bolsa de Paris, os quais frequentaram os jantares da campanha de Macron na companhia dos dirigentes dos grupos de comunicação que possuem os principais jornais, rádios e televisões do país.
Nenhuma destas personalidades e entidades manifestou, em caso algum, inquietação com a xenofobia e o racismo praticados pelo governo de que Macron foi membro, sob a cobertura do estado de excepção, a pretexto do terrorismo e da crise dos refugiados. Condições e situações que, tudo o indica, prosseguirão com a «revolução em marcha» de Macron.
Por ora observamos a camada governante francesa repudiar o nacionalismo, a gestão do capitalismo neoliberal, o racismo e a xenofobia de Marine Le Pen enquanto apoia o neoliberalismo selvagem, o racismo e a xenofobia de Emmanuel Macron, afinal uma prática de fascismo em versão maquilhada num sistema esvaziado de democracia, gerido por um presidente produzido e formatado em laboratório.
Eis a escolha deixada aos franceses, tal como a apresentada aos norte-americanos; e que ameaça tornar-se a panaceia da época para valer ao estado de crise do capitalismo.



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